História da Cobal

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Esta página trata da história do Hortomercado COBAL, focalizando a unidade Humaitá, localizada na Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro.

COBAL – A Companhia Brasileira de Alimentos foi um órgão do Ministério da Agricultura criado em 1962 e extinto em 1990. Tinha o objetivo de promover o abastecimento estatal nas grandes metrópoles de artigos hortifrutigranjeiros, assim abrindo postos de varejo por todo o país.
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Concebendo a Cobal

As intervenções promovidas no Brasil pelas políticas públicas de abastecimento foram respostas às profundas mudanças na base econômica e na estrutura urbana observadas a partir da década de 1960 (VILELA, 2006).

A Companhia Brasileira de Alimentos (COBAL) foi concebida em 1962 com o objetivo de atender ao crescimento da população urbana, que sofria de escassez de oferta de produtos hortifrutigranjeiros, devido à limitada cadeia logística da época, incapaz de escoar de maneira eficiente o que era produzido no campo.

Assim, o governo se incumbiu da tarefa de criar centrais de abastecimento e postos de varejo e, já no início da década de 1970, uma das iniciativas da COBAL consistiu em implantar hortomercados, que se destinavam ao comércio varejista de hortifrutigranjeiros, concentrando os vendedores em um único espaço coberto, visando a melhoria das condições de higiene e a redução das perdas de alimentos perecíveis.

As principais expectativas eram a redução dos custos de comercialização e, consequentemente, dos preços dos alimentos aos consumidores (VILELA, Op. cit.).

As unidades foram planejadas como modelo para áreas urbanas de renda média e alta. O Hortomercado Humaitá foi o primeiro das quatro unidades implantadas na cidade do Rio de Janeiro, seguidos pelas unidades do Leblon, Méier e Campinho.

Inauguração

A Cobal do Humaitá foi inaugurada em 1971, com 10.771 metros quadrados, sendo 6.877 edificados e 3.842 de estacionamento. Seu objetivo inicial de criar um canal de escoamento para as grandes cidades das safras agrícolas, tornando-se alternativa organizada e higiênica às feiras de rua que eram populares na época

Antes de mais nada, o colorido, o cheiro, a delícia de passar pelos stands fartos em cenouras, morangos, laranjas, abacates, melões, abacaxis, couves, bananas, espinafres, repolhos, abóboras, maracujás, tomates, peras, goiabas, melancias, maçãs, tangerinas, uvas e caquis, afora os queijos, carnes, peixes, frangos, ovos e plantas. Ir à Cobal dá prazer. Ou irritação, porque nas horas de rush, como às 5h da tarde de um sábado, fica intransitável. O nome correto é Ceasa-Cobal, mas vingou Cobal, tout court. Funciona há 9 anos, área de 10 mil 800m2, é o maior hortomercado em volume comercial do Brasil [...] entre hortaliças, frutas, aves, ovos e carnes. Há ainda a loja de sucos, os stands de flores, as ofertas do dia. [...] A semana na Cobal começa à meia-noite de terça-feira [e termina] às duas da tarde de domingo [...]. Até hoje o gerente não conseguiu saber quantas pessoas a freqüentam, mas até turistas, dos mais requintados [...] fazem da ida à Cobal um must 
 (JORNAL DO BRASIL, 14 set. 1980).

Ainda na década de 1970, foi criada uma rede estatal de supermercados, onde algumas lojas foram incorporadas aos hortomercados. Na Cobal do Humaitá este supermercado ficava onde hoje estão alguns estabelecimentos, tais como, Espírito do Chope, Vivant e Las Brutas. No entanto, frente à forte concorrência com os supermercados privados acabou por encerrar as atividades no final da década de 1980.

Arquitetura

O nome brutalismo vem do termo francês “béton brut” (“concreto bruto” em português). Quem batizou e consolidou os ideais do estilo foi Le Corbusier, que o aplicou pela primeira vez na Unité d’Habitation na França, inaugurada em 1946.

A forma da edificação é classificada como Brutalista. A arquitetura brutalista foi um movimento arquitetônico desenvolvido por arquitetos modernos entre as décadas de 50 e 60. O brutalismo, despido de ornamentos, evita esconder os seus elementos estruturais. Deste modo, canos, vigas, pilastras e outros elementos estruturais deixam de ser escondidos visando a estética e passam a fazer parte do conjunto arquitetônico visível a olho nu.

Anos 80

A Cobal foi perdendo aos poucos sua função inicial.

Anos 90 - Renascimento

Nos anos 1990, após uma reviravolta promovida por entes públicos e privados, a parte norte da Cobal, que aponta para a Rua Humaitá foi reestruturada para acomodar estabelecimentos que vieram, pouco tempo depois, a criar o Polo gastronômico do Humaitá, carinhosamente conhecido como Baixo Cobal, em referência ao Baixo Leblon, popular reduto da boemia carioca.

Nesse período, a Cobal se tornou uma das poucas opções de lazer a céu aberto para os moradores do entorno, principalmente Humaitá e Botafogo, mas também de gente vinda de outros bairros mais distantes, atraídas pela popularidade que projetou definitivamente o local no cenário cultural da cidade.

Tombamento

O tombamento provisório dos Hortomercados COBAL do Humaitá e do Leblon em julho de 2008 ocorreu por iniciativa da administração municipal da cidade do Rio de Janeiro. A medida foi tomada com o objetivo de salvaguardar estes bens da ameaça de demolição.

O processo de tombamento da Cobal se dá através da análise de duas categorias distintas:

Forma

Envolve a materialidade arquitetônica e sua relevância tipológica. Para esta análise, toma-se como base a definição de um projeto de lei lançado em 2004, o qual defende o tombamento dos bens, justificando-os pela relevância arquitetônica, classificada como brutalista (para compreender esta classificação fez-se necessário uma revisão de conceitos que apontem os principais expoentes do brutalismo nos cenários internacional e brasileiro).

Significado Simbólico

Trata da função social do espaço e seu processo de apropriação simbólica, decorrente das sucessivas transformações de uso ocorridas em seu interior. A diversidade de atividades encontrada nos hortomercados atualmente (comércio, gastronomia, cultura) reforça a ideia de “fruição” do uso arquitetônico.

Fruição

Apesar de suas características arquitetônicas, a edificação não possui valores expressos, mas apresenta características significativas relacionadas ao processo de apropriação simbólica. Este processo pode estar associado a sua fruição, uma vez que, desde a inauguração, em 1971, seu interior passou por sucessivas transformações de uso, tais como bares, restaurantes, e outras funções comerciais. Estas novas funções, ligadas à gastronomia, à boemia e à cultura, trouxeram outros significados para o bem.

O hortomercado assumiu o papel de produtor de vitalidade urbana no Humaitá, assim como o de referencial do bairro e adjacências.

Embasado nesta hipótese, a análise do processo de tombamento do referido objeto será compreendida em duas categorias distintas:

  • A forma da edificação e o seu significado simbólico - Emerge daí, a necessidade de rever alguns conceitos teóricos para avaliar, a priori, a relevância do partido arquitetônico e a posteriori, as relações sociais produzidas no local.

Especulação imobiliária

A existência de um conflitante jogo de interesses, que envolve agentes de diversas esferas, ameaça a permanência dos hortomercados, o que acarretou a iniciativa municipal de encaminhar e aprovar o tombamento provisório do bem.

Fundamentos para o tombamento

Deve-se observar os discursos dos diversos atores sociais envolvidos, pautando esta análise na reflexão de conceitos teóricos sobre forma/tipo e uso/significado. A questão dá margem a uma discussão polêmica: a do tombamento arquitetônico ou a de seus valores simbólicos.

O Projeto de Lei Nº 2145/2004, de autoria do vereador Eliomar Coelho (PT), que adota o brutalismo como relevância formal em uma das justificativas para seu tombamento, fez-se mister uma revisão de conceitos que pudessem esclarecer alguns fundamentos desta linguagem arquitetônica. Buscou-se assim, referenciais teóricos nas publicações de Bruand (2003), Zein (2007) e Castelotti (2006), autores que apontaram os principais expoentes do brutalismo nos cenários internacional e brasileiro. O segundo, por conseguinte, priorizou o conceito de significado, como um elemento resultante do processo de fruição do uso que, segundo Gregotti (1978), é a capacidade da edificação permitir novas possibilidades de uso arquitetônico.

Decadência da década de 2010

Projetos de revitalização

Projeto federal de 2016

Coluna do Ancelmo Góis com detalhes do projeto de revitalização da Cobla do Humaitá

Projeto iniciado em 2012, construído pela sociedade civil, com apoio dos três níveis de governo, associações de moradores e comerciantes, e que em 2016 chega a seu estágio de maturação: servir como base para uma PPP. Um projeto economicamente viável, que respeita o bairro do Humaitá e Botafogo, a história da Cobal como hortomercado e os comerciantes que lá trabalham.

Trata-se do primeiro passo para uma grande mudança de paradigma: a produção de cidade pela sociedade civil.

Projeto municipal de 2019

Projeto de revitalização da Cobla do Humaitá

Em fevereiro de 2019 o então prefeito do Rio, Marcelo Crivella, foi a Brasília apresentar projeto para modernizar a Cobal do Humaitá e a do Leblon. Qualquer mudança nos dois mercados precisa do aval da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que gere os espaços e cobra aluguel dos estabelecimentos.

O projeto da prefeitura prevê parceria público-privada com validade de 50 anos. Os croquis mostram edifícios para abrigar mais lojas e novo paisagismo. Também está prevista a construção de garagem subterrânea.

Privatização

A partir de 2004, as associações de bairro e os lojistas das unidades Humaitá e Leblon, ameaçados pela desativação destas unidades exigiram seu tombamento. A iniciativa ganhou força com o surgimento de rumores que um edifício-garagem com onze andares seria construído no lugar da Cobal do Humaitá. Na época, a presidente da Associação de Moradores do Bairro de Botafogo, Regina Chiaradia, declarou-se indignada:

 “- Fiquei chocada e disse que a proposta ia receber a pior manifestação dos moradores [...] – É preciso reformar, mas mantendo as características atuais”.

Diante da inquietação dos cariocas, o vereador Eliomar Coelho (PT) apresentou à Câmara Municipal um projeto de lei que visava tombar a construção, alegando interesses de caráter histórico-cultural. Assim, coletaram-se assinaturas na região para endossar a viabilidade do referido projeto, conforme reproduzido abaixo:

“Nós abaixo-assinados, acompanhamos apreensivos pela imprensa, as notícias sobre a construção de um edifício garagem de 11 andares no terreno ocupado pelo hortomercado Cobal-Humaitá. Desde já, nos posicionamos contrários a tal empreendimento e apoiamos às iniciativas que pedem o tombamento do atual prédio da Cobal”
 (RIO, A CIDADE PARTIDA, 2004).

O Polo Gastronômico

Além dos produtos hortifrutigranjeiros, verifica-se hoje uma diversificação de atividades comerciais, tais como, bares e restaurantes os quais trouxeram uma nova vitalidade ao lugar, passando a representar um marco referencial para o bairro e localidades vizinhas.

Estabelecimentos fechados definitivamente na Cobal do Humaitá

  • Loading - Loja de roupas femininas. Encerrou as atividades em 2016
  • DeVeras Café - Cafeteria e tabacaria no interior da Cobal. Encerrou as atividades em 2021.
  • Torta & Cia - Loja de bolos e tortas. Encerrou as atividades em 2021.
  • Yogoberry - Famosa rede de frozen yogurt no interior da Cobal. Encerrou as atividades em 2020.
  • Rei do Mate - Lanchonete e casa de mate. Encerrou as atividades em 2021.
  • Rota 66 - Encerrou as atividades em 2018.
  • Spagheteria - Encerrou as atividades em 2018.
  • The Cannibal - Encerrou as atividades em 2018.
  • Restaurante do Mercado - Encerrou as atividades em 2015.
  • Humaitá Delicatessen - Encerrou as atividades em 2015.
  • Humaitá Grill - Encerrou as atividades em 2014.
  • Bar do Rock - Bar de cervejas artesanais e vinhos. Encerrou as atividades em 2018.
  • Far Up - Casa de shows - Encerrou as atividades em 2012.
  • CaVideo - Locadora de filmes - Encerrou as atividades em 2021.
  • Le Cremier - Encerrou as atividades em 2014.
  • Peixaria Serra da Estrela - Encerrou as atividades em julho/2014.

Referências