Paris Tropical

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A vida boêmia carioca só começa efetivamente no início do século XX quando da reforma do Prefeito Pereira Passos que pretendia fazer do Rio de Janeiro a "Paris Tropical", abandonando a fisionomia de uma cidade marcada por traços coloniais, fazendo uma remodelação não só arquitetônica como também nos meios de transportes e de costumes. Era dada a partida para a modernização do Rio que passa a ter lugares especiais para a boemia.

Os cafés e confeitarias passam a ser locais da moda. A Confeitaria Colombo passou a ter todo aspecto “art-noveou” que marcava a arquitetura e decoração parisiense.Todo final de tarde, lá se encontravam as senhoras e moças de famílias emergentes. Ao anoitecer, o público mudava e então chegavam os homens que estavam saindo de seus escritórios. Temos aí, portanto, o “happy-hour” do início do século.

A boemia se expande para outros lugares do centro. Agora é a Praça Onze que irradia sua comunicação boêmia. Aparece um novo ritmo o samba. Nos terreiros das tias baianas as festas são animadas pelo ritmo do jovem samba. Era a boemia com um casamento perfeito: o samba e a cerveja devido a proximidade de uma fábrica de cerveja.

O Rio passa a ser o próprio lugar para a agitação e, do Centro acabaram fazendo da Lapa o reduto maior da boemia com seus malandros, artistas, prostitutas e travestis. Podemos dizer que era a elite com o submundo, uma verdadeira mata tropical. Era o “bairro do pecado” como se referiam as autoridades da época que perseguiam sua gente boêmia e marginal.

Entre 1937/1945, intervenções urbanas atingiram a área da boemia, particularmente na Lapa e na Praça Onze. A recuperação da boemia viria com a transferência para as boates em Copacabana que era um território boêmio diferente. Os freqüentadores eram a nata da sociedade e da intelectualidade, o high-society, os cronistas da imprensa, a turma da música popular e refúgio para solitários. Este cotidiano noturno era vivenciado dentro dos bares, restaurantes e boates onde existia uma atmosfera ideal. A cadência mais tradicional do samba começou a ser substituída pelo samba canção, mais lento, abolerado e centrado na temática da dor-de-cotovelo.

A cidade continua a crescer e a boemia passa por diferentes momentos e influências. Os cariocas acabam elegendo novos ambientes para suas agitações. Está instalada a era da Bossa Nova. É a boemia intelectual onde os barzinhos proliferam e a batida do violão vai rasgando a madrugada. É “bacana” ver o sol nascer. A Garota de Ipanema é reverenciada. O malandro mudou de ares. O velho malandro deu lugar aos músicos e poetas que registraram a boemia em livros e músicas, sempre sob a inspiração de muito chopp e whisky.

O Baixo Leblon está na moda. É o novo ponto de encontro. A geração de 70 fazia muvuca ali no Baixo Leblon. O Baixo Leblon representava o convívio de tribos diferentes. O hábito noturno já contava mais fortemente com a presença das mulheres. A mulher boêmia entrava cada vez mais madrugada adentro. É a boemia da Zona Sul. Época áurea do dancin days.

A cidade se agigantou. A boemia leva sua comunicação aos subúrbios. Os espaços de boemia se multiplicam. Surgem casas de show, rodas de pagode e barzinhos de voz e violão. Começam a aparecer lugares dedicados ao melhor da samba e do choro carioca. O forró invade a noite. Há lugar para o pop da moda, um funk ou um hip hop. Na boemia carioca há lugar para todas as tribos, existindo todo um linguajar típico para cada grupo. É a diversidade cultural. Há lugar para encontros e desencontros, amores e desilusões. É a vida que continua em cada amanhecer.

A Reforma Pereira Passos e a Classe Popular

O Rio de Janeiro da primeira década do século XX apresentava-se como uma capital de aparentes contradições. A reforma empreendida pelo prefeito, do então Distrito Federal, Francisco Pereira Passos, visava eliminar, sobretudo, as contradições do espaço urbano carioca. Era preciso a cidade assumir feições novas, de acordo com as determinações econômicas e ideológicas do momento.

Com a economia brasileira crescendo rapidamente, tornava-se importante à agilidade das exportações, e a inserção cada vez maior do Brasil no modelo capitalista internacional. Era de urgência agilizar a circulação de mercadorias, que pendia devido às características do espaço colonial da cidade. Tendo, então, a cidade ser cortada em todos os sentidos, afetando lugares e a vida das pessoas.

O Rio de Janeiro tinha que se tornar uma nova capital, espaço do moderno, da civilização, que simbolizasse realmente a importância do Brasil, e fosse expressão dos valores e modos de vida cosmopolita e moderna da elite do país. Dentro desse quadro havia uma tensão entre a civilização e o atraso. “Era preciso acabar com a noção de que o Rio era sinônimo de febre amarela e de condições anti-higiênicas; transformá-lo num verdadeiro símbolo do ‘novo Brasil” (Abreu, 1997). A cidade tinha a função de servir de exemplo para todo país. Tinha que estabelecer a sua vocação moderna, conforme as grandes capitais européias.

Pereira Passos, apoiado por Rodrigo Alves e os setores dominantes da sociedade, estabelece seu plano e dando início ao “bota-abaixo”, começa a realizar as obras de embelezamento e saneamento da cidade.

Com as obras de demolição, vários prédios que serviam de moradia às populações pobres, foram destruídas. De fato com o alargamento das ruas centrais e a inauguração de novas vias de comunicação, ocorreu a destruição de inúmeros cortiços, que eram entendidos como sínteses da insalubridade e da violência, espaço da barbárie. A reorganização do espaço urbano carioca, sob novas orientações econômicas e ideológicas, não condizia com a presença de pobres na área central da cidade. Afastar os pobres da área central da cidade e não permiti-los entrar nas áreas nobres são objetivos de todos os prefeitos até Pereira Passos. A cidade com a reforma define quem deve ou não deve estar na área central.

Pereira Passos declara guerra ao comércio dos quiosques e proibi a venda de produtos por ambulantes (nada diferente de hoje!). A feira livre, inclusive, na cidade do Rio de Janeiro foi criada em 1904, como um modelo de inspiração européia, assentada em “modernos” princípios de beleza, disciplina e higiene, modelo este que paulatinamente se difundiu e se consolidou pelo Brasil urbano.[1] Proibisse também o exercício da mendicância, e como dito anteriormente começa a demolir uma série de cortiços. Ou seja, tudo que viesse imacular a imagem da cidade. A população pobre que morava nas propriedades coletivas se via forçadas a morar, grande parte, com outras famílias, a pagar aluguéis altos, ou ir morar nos subúrbios, já que eram poucas as moradias populares feitas pelo governo em substituição às destruídas.

Pereira Passos ao eliminar as contradições do espaço urbano carioca gerava novas contradições. Com a destruição de inúmeros cortiços, a única alternativa, para uma população pobre que precisava morar próximo ao local de trabalho foi à favela. Os morros do centro, até então poucos habitados, passam rapidamente a serem habitados dando origem a algumas atuais comunidades carentes . O escritor Lima Barreto, dá-nos uma descrição da situação desses lugares: “Há casas, casinhas, casebres, barracões, choças, por toda a parte onde possa fincar quatro estacas de pau uni-las por paredes duvidosas (...) Há verdadeiros aldeamentos dessas barracas nos morros (...) Nelas há quase sempre uma bica para todos os habitantes e nenhuma espécie de esgoto” (Barreto, 1997).

No entanto, como disse anteriormente, nem todos que eram expulsos dos cortiços, foram morar na favela. Grande parte da população foi morar na área suburbana da cidade, contribuindo para a ocupação do espaço. O Rio de Janeiro continuou uma cidade de contrastes, onde o novo se misturava com o velho, como por exemplo, ao lado do homem moderno surgiam tipos urbanos ligados à pobreza urbana. Fixou-se assim o cenário, a imagem que se ia caracterizar a aparência do Rio.

Motivações e consequências sociais das reformas urbanas no Rio

No início do século XIX, os habitantes do Rio de Janeiro mal podiam imaginar que as decisões políticas e militares de Napoleão Bonaparte significariam mudanças tão grandes em sua cidade. As tropas francesas invadem Portugal no final de 1807 e, no início do ano seguinte, chegam às terras brasileiras os monarcas portugueses e sua corte, em fuga. O desembarque e a instalação de D. João e a corte portuguesa no Rio de Janeiro, em março de 1808, é o começo de uma história de grandes mudanças e controversas reformas urbanas dessa que é, sob muitos aspectos, a cidade que melhor sintetiza o que é o Brasil. De lá pra cá, a “cidade maravilhosa”, que já havia passado pela experiência de ser elevada a sede do vice-reino do Brasil em 1763, depois de um século e meio como o centro do poder brasileiro, viu-se perdendo o posto para a artificial, recém-construída, Brasília. Tal história propicia as seguintes questões: quais foram as principais reformas e rearranjos urbanos pelos quais o Rio passou e como essas mudanças responderam às questões de seu tempo?

As primeiras coisas, primeiro. Comecemos pelo problema habitacional causado pela chegada da corte portuguesa. Onde haveriam de ser alocadas as quase 15 mil pessoas que acompanharam a fuga de D. João para o Brasil? A solução encontrada foi simples, mas indigesta para a população carioca: o confisco de residências. “Escreviam 'PR', de 'Príncipe Regente', nas casas que seriam confiscadas. Então, a população arranjou um outro sentido para a sigla: 'ponha-se na rua'”, conta Carlos Vainer, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para quem a história do Rio é uma história de exclusão. “Desde a sua fundação, os pobres são removidos para dar lugar aos ricos: a cidade começa com a expulsão dos indígenas”.

Entretanto, se ao longo de sua história – passando pelo decisivo momento da chegada da corte portuguesa – a cidade se molda aos interesses dos mais abastados e poderosos, a fundação do Rio de Janeiro moderno (ou seja, quando emergem muitos dos problemas e virtudes da cidade) ocorre com as grandes reformas urbanas do começo do século XX.

As reformas fundantes

A cidade passou por mudanças urbanísticas profundas na primeira década do século XX. Essas reformas são vistas, hoje, como eventos fundadores do que é a moderna cidade do Rio de Janeiro. É consenso que, antes delas, a então capital brasileira era uma cidade insalubre. Os vários retratos pintados por historiadores convergem para uma imagem de ruas divididas por animais, seus excrementos, pessoas de várias origens, classes sociais e atividades econômicas: cavalheiros e damas da elite, biscateiros, vendedores de carnes e vísceras, brancos, negros e mulatos. “O centro antigo era misto, democrático, onde vários grupos sociais coexistiam”, diz Vainer. Mas era, também, um centro de epidemias recorrentes. Os cortiços do centro, onde morava boa parte da população pobre da cidade, foram alvo do discurso higienista, que misturava prescrições da ciência médica e padrões morais de convivência urbana. A reforma realizada pelo prefeito Pereira Passos demoliu os cortiços e abriu largas avenidas. Ficou conhecida, por isso, como “bota abaixo”. Sob a égide do discurso higienista, desalojou do centro da cidade os antigos moradores dos cortiços, que migraram em duas direções: para a periferia e para os morros. “A reforma Pereira Passos organizou a cidade do ponto de vista de uma organização de classes, dividindo os espaços de acordo com critérios de classe”, afirma Vainer.

Usualmente, a historiografia tratou a questão como se houvesse apenas uma grande reforma urbana do Rio de Janeiro na primeira década do século XX; como se todos os planos de mudança urbanística dessa época houvessem tido a mesma natureza. O historiador André Nunes de Azevedo, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, contesta essa visão: “Não houve apenas uma reforma urbana. Aconteceram duas reformas em paralelo, dois planos urbanísticos completamente distintos”. Segundo Azevedo, as reformas urbanísticas propostas pelo então presidente da República Rodrigues Alves e pelo prefeito Pereira Passos – levadas a cabo em diferentes regiões da cidade – divergiam profundamente. “A reforma feita pelo governo federal tinha como valor máximo a ideia de progresso – um progresso que significa, fundamentalmente, desenvolvimento material, técnico e econômico. Não havia preocupações, nesse sentido, com o progresso científico ou artístico”, afirma Azevedo. “Segundo essa proposta, a cidade precisava deixar de ser insalubre, pois, visto como porta de entrada da captação de imigração, o Rio preocupava a elite cafeicultora, que nesse momento estava em crise de mão-de-obra e dependia muito da imigração para sanar essa questão”. “Além disso”, continua, “as reformas de Rodrigues Alves tinham o intuito de facilitar o escoamento, desde o porto, da mercadoria importada”.

Sobre a reforma do prefeito Pereira Passos, Azevedo defende um ponto de vista divergente do consenso historiográfico sobre o tema, que se cristalizou desde a década de 1970. Para ele, a reforma Pereira Passos não foi excludente, mas realizou um projeto de inclusão social conservador. “A reforma urbana municipal estava menos preocupada com o tipo de progresso material que Rodrigues Alves buscava e mais centrada na ideia de civilização: Pereira Passos queria civilizar o Rio de Janeiro. Assim, ele convoca a população para se incluir, tomar contato com o Theatro Municipal e com a Escola de Belas-Artes, por exemplo”, afirma Azevedo. Essa inclusão conservadora, segundo os parâmetros ditados pela elite, se realizaria de acordo com “uma visão orgânica em que a cidade deveria estar completamente conectada: há três vias claras de ligação do centro com o subúrbio”. A civilidade buscada por Pereira Passos para o Rio era eurocêntrica. Segundo essa visão, o ápice da civilização humana era a cultura europeia. Por isso, civilizar também significava educar, letrar a população: “Pereira Passos aumentou bastante o salário dos professores e construiu muitas escolas”, ressalta o historiador.

A erradicação das epidemias

O discurso médico higienista que foi encampado pelo Estado brasileiro, nesse período, nas reformas urbanas do Rio, não existiu sem encontrar resistência em boa parte da população. Em 1904, ocorreu um evento que ilustra a reação popular a essa imposição à força da civilização e do progresso: a Revolta da Vacina.

Oswaldo Cruz, médico sanitarista, chamou para si a responsabilidade de erradicar os surtos de doenças que varriam a cidade. Primeiro, teve de combater os médicos que não acreditavam em seu novíssimo e eficiente método de acabar com a varíola: a vacina. Depois, bateu de frente com tradições populares de cura, uma miríade de práticas alheias à ciência médica ocidental, colocadas no mesmo balaio do “curandeirismo”. Além da doença, essas práticas também deveriam ser erradicadas, pelo bem da saúde pública. O resultado dessa imposição estatal de uma forma de curar e mesmo de viver foi o enfrentamento urbano entre uma entrincheirada população civil e as forças do Estado brasileiro.

A erradicação dos pobres

Meio século depois das grandes reformas urbanísticas, o Rio perdia seu status de capital do país e via-se em meio a um crescimento intenso – da população e da pobreza. “O processo de urbanização se acelera no pós-guerra. Nos anos 1950 e 1960, assistimos ao processo de crescimento expressivo de dois lugares da pobreza: a periferia e as favelas dos morros. Nesse período, o crescimento das favelas começa a ser visto como ameaça”, afirma Vainer. Ele diz que no governo de Carlos Lacerda (1960-1965), o Rio assistiu a uma política sistemática, por meio de processos violentos, de remoção de favelas. “A famosa Cidade de Deus e outros conjuntos habitacionais na periferia são resultados da remoção de favelas da zona sul. Foram realizadas a 'limpeza' e a 'captura' das terras: os pobres foram expulsos da região e as terras foram destinadas à especulação imobiliária”, continua o pesquisador.

Para André Azevedo, Lacerda também tinha uma espécie de projeto de inclusão conservadora. “Lacerda era um liberal cuja preocupação em educar a mão-de-obra tinha como fundamento a intenção de colocar o Brasil nos trilhos do capitalismo moderno. As mudanças no Rio de Lacerda não deixam de ter um caráter de inclusão, mas uma inclusão totalmente conservadora, partidária da remoção de favelas”, ressalta. “Mesmo os mais conservadores, como Lacerda, podem ter projetos urbanos de inclusão, a seu modo. Não cabe apenas denunciá-los: temos de tentar compreendê-los”, opina Azevedo.

Tragédia e esperança

Cidade-símbolo de um país cuja história é um monumento à desigualdade e à exclusão social, o Rio de Janeiro tem na questão habitacional um de seus pontos mais problemáticos. A topografia da cidade proporciona, simultaneamente, sua beleza única e uma condição que, aliada a um histórico de políticas públicas deficientes ou inexistentes, provoca uma série de problemas na ocupação habitacional. Assistimos, muito recentemente, às tragédias provocadas pelas chuvas excessivas. Deslizamentos mataram mais de duas centenas de pessoas, moradores de áreas de risco.

“A tragédia é reveladora das mazelas da cidade. Mostra como ela é desigual, maravilhosa para uns e horrível para outros”, diz Vainer. “A tragédia revela a omissão brutal por parte de um Estado que não teve qualquer política habitacional. Não alocou recursos para a proteção dessas comunidades (que sofreram com os deslizamentos), não ofereceu alternativas razoáveis para essas populações”, continua. Sobre a questão da remoção dos habitantes de áreas de risco, Vainer afirma que é possível evitá-las. “A tragédia está sendo usada para transformar uma parcela da população em refém do terror. Os lugares em que ocorreram as tragédias são justamente aqueles que não passaram por nenhuma obra de proteção de encostas. No Morro dos Prazeres, por exemplo, houve deslizamentos justamente nos lugares onde não houve proteção das encostas”, pontua.

Para Azevedo, uma das soluções para muitos dos problemas do Rio passa pela revitalização do porto e pelo resgate da cidade como o grande polo turístico do Brasil. “Devemos pensar em abrir os cassinos e transformar a cidade num polo de lazer. O turismo é uma das maiores fontes de renda de países como a Espanha e não deve ser subestimado numa cidade que depende fundamentalmente de um recurso natural como o petróleo”, avalia. A região do porto também é considerada chave para Vainer. “Deve-se prever bairros mistos na área portuária para se combater o processo de segregação. Os espaços onde a cidade se realiza são os espaços de mistura”, diz. “No Rio há um enorme parque imobiliário ocioso e terras públicas na área portuária que deveriam ser utilizados para mitigar alguns dos problemas habitacionais, além de recursos financeiros: sediaremos as Olimpíadas”, continua. “O que falta, mesmo, é vontade política”, arremata.

A história do Rio de Janeiro é uma história de segregação, de exclusão. Quando uma realidade social já trágica se depara com tragédias do porte da que ocorreu em março deste ano, é inevitável perguntar: há lugar para a esperança? Num cenário em que a omissão estatal é a tônica, qualquer resposta positiva a essa questão deve passar pela organização e luta de uma população que chame o Estado a assumir suas responsabilidades sociais, secularmente ignoradas.

As Principais reformas do Rio de Janeiro na República Velha (1889-1930)

  • A Reforma de Pereira Passos - 1902-1906
  • A Reforma de Paulo de Frontin - 1919
  • A Reforma de Carlos Sampaio - 1920-1922
  • Presidentes do Conselho Municipal de Intendentes - 7/12/1889 a 20/09/1892
  • Prefeitos do Distrito Federal na República Velha - 1892-1930

Reforma de Pereira Passos - 1902-1906

Em 1902, no Governo de Rodrigues Alves, assumiu o cargo de Prefeito do Distrito Federal, Francisco Pereira Passos, um ousado reformador, que apesar de seus sessenta e seis anos de idade ainda mantinha uma energia pouco comum e grande capacidade de trabalho, ele submeteu o Distrito Federal a uma reforma de ponta a ponta, com o apoio do Presidente através de seus recursos abundantes, resultantes da expansão do mercado internacional do café e da borracha. Pereira Passos destruiu e arrasou o que estava feito e construiu no seu lugar, o núcleo básico de uma nova cidade, moderna e arejada.

Desde os anos 80 do Século XIX, diversas modificações se processaram na mentalidade dos brasileiros, principalmente médicos e engenheiros, que começaram a se inspirar nos avanços da ciência e queriam "civilizar" a cidade que vivia imensos problemas ligados à pobreza e à escravidão, Pereira Passos e Osvaldo Cruz faziam parte deste grupo.

Pereira Passos tinha grande experiência adquirida como Consultor Técnico do Ministério da Agricultura e Obras Públicas do Império sob a direção de João Alfredo Correia de Oliveira. Recebeu de D. Pedro II, a concessão da Estrada de Ferro do Corcovado, tinha grande prestígio no Clube de Engenharia e presenciou, em Paris, a grande reurbanização comandada por Georges Haussmann. Pereira Passos reuniu uma equipe de engenheiros, topógrafos e desenhistas e planejou uma grande Reforma que tinha três principais dirigentes: Carlos Augusto Nascimento Silva, substituído em 1905, por Jerônimo Coelho; Francisco de Oliveira Passos e Alfredo Américo de Sousa Rangel.

O projeto da Reforma foi realizado por Pedro Américo de Sousa Rangel que o submeteu ao Engenheiro Nascimento Silva em 13 de abril de 1903, com bastantes detalhes e uma previsão orçamentária para sua execução. Levado ao Prefeito foi aprovado em 1o de setembro de 1903 sob o título de: Embelezamento e Saneamento da Cidade. O projeto foi executado sem alterações profundas.

Em pouco mais de três anos, 1903 a 1906 foram arrasadas áreas inteiras, espantando a população marginal que se alojava em cortiços e casas de cômodo. Esta obra, foi a maior que a cidade já vivenciou e tinha como parte essencial o saneamento básico e a higienização visando erradicar as doenças da cidade, tarefa entregue ao cientista Oswaldo Cruz, microbiologista que estudou no Instituto Pasteur em Paris e que, em 1902, era Diretor do Instituto de Manguinhos, atual Instituto Oswaldo Cruz.

Oswaldo Cruz lançou uma grande campanha para combater a febre amarela e a varíola tornando a vacina obrigatória. Foi abolido da cidade tudo que podia enfear e que fosse contra a ordem sanitária, para isto foram afastados os animais que tinham livre trânsito pelo centro da cidade e a população teve que mudar de hábitos, até os tradicionais "quiosques" foram considerados nefastos devido à sujeira que traziam.


A Avenida Rio Branco atualmente em toda sua extensão, foto tirada do navio Armonia saindo do Porto do Rio de Janeiro, na Praça Mauá, tendo ao fundo o Obelisco. A Reforma, que era formada de 196 projetos, contemplava: o re-ordenamento e extensão da malha de circulação viária; escoamento de águas pluviais; indução e desenvolvimento da produção; reaproveitamento do solo urbano; melhoramentos dos serviços a cargo da Prefeitura; abertura de escolas primárias; ampliação do atendimento médico de ordem pública e delineamento de horizontes futuros. Tinha como linha mestra a abertura de avenidas litorâneas que facilitassem o acesso de uma extremidade a outra da cidade, em um sistema que com o reforço da abertura posterior de túneis, vem atualmente, um século depois se completando.

Esta grande obra de remodelação tinha como ponto principal a abertura da Avenida Central, que teve suas obras iniciadas em 1904, rasgou todo o centro da cidade da Praça Mauá até a Avenida Beira Mar, com 33 metros de largura e 1.800 metros de comprimento, tendo no seu eixo o Pão de Açúcar, símbolo da cidade. O Projeto da Avenida Central foi chefiado pelo Engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin.


A Avenida exigiu para sua abertura a demolição de cerca de 600 prédios velhos do centro da cidade, obra que ficou conhecida como "bota-abaixo". Em vinte meses, Pereira Passos enfrentou preconceitos, desalojou milhares de pessoas, deslocou centenas de estabelecimentos comerciais, removeu escombros, loteou o terreno, fez instalações de esgoto, água, luz e eletricidade, nivelou, calçou, arborizou, numa obra que honrou quem a executou e quem a determinou.

A Avenida cortou vários logradouros e absorveu outros, atravessou a Rua Chile que desapareceu; a Rua do Ourives, atual Miguel Couto; a Rua da Assembléia; a Rua Sete de Setembro e a Rua do Ouvidor, entre outras. De seu corte nasceram novos logradouros, como as ruas: Mayrink Veiga; Beneditinos; Almirante Barroso e Araújo Porto Alegre. A Avenida estabeleceu a ligação do centro comercial e do Porto do Rio de Janeiro, com a zona sul da cidade, interligando-os através da Avenida Beira Mar aos bairros da Glória, Catete, Botafogo, Lagoa, Laranjeiras e Gávea. O novo Porto também parte do projeto da reforma Pereira Passos, foi inaugurado em 1910. Assim se criava a cidade do futuro que se firmava com a função de vanguarda da Nação.

A Avenida era moderna no meio de uma região que não era moderna, deveria assim, exercer sobre as ruas do centro uma modernidade que iria aos poucos se integrando, seu projeto era mais do que uma reforma urbana, era um projeto de vida moderna. Todo o entorno da Avenida foi atingido pela Reforma, as ruas foram ampliadas e receberam asfaltamento, que foi nesta época introduzido na cidade.

Sua inauguração ocorreu em 15 de novembro de 1905, seu calçamento era de pedras portuguesas e o canteiro central, que dividia a avenida em duas mãos era enfeitado por árvores de pau-brasil. Depois de sua inauguração passou a ser, e mantém-se até hoje como a principal artéria do coração financeiro da cidade, destronando a antiga Rua Direita, que perdeu sua categoria de endereço mais elegante e importante do Rio de Janeiro. No início de sua existência a Avenida era lugar de passeio da população.

O povo se entusiasmou com a iluminação elétrica que também foi inaugurada na cidade, como consequência da instalação no Rio de Janeiro, da empresa canadense do Grupo Light, que já estava instalada em São Paulo desde 1899.

Logo depois de sua abertura inúmeros prédios de grande beleza arquitetônica foram surgindo ao longo da Avenida, seguindo deliberações de Paulo de Frontin, todos os prédios construídos foram vencedores do Concurso de Fachadas, portanto a construção foi toda planejada. Seu principal arquiteto foi Morales de los Rios, herdeiro de Grandjean de Montigny. O primeiro prédio a ficar pronto na nova Avenida foi o da Tabacaria Londres, em 25 de março de 1905.

A Avenida Central modificou totalmente os hábitos e aspectos da cidade e teve influência sobre toda a região ao seu redor. Para o comércio ela foi vital e nela se instalaram as principais casas comerciais. Teve e ainda tem jornais importantes, grandes companhias, clubes, hotéis, vários edifícios do Governo como: a Escola de Belas Artes, hoje Museu Nacional de Belas Artes; o Theatro Municipal; a Biblioteca Nacional e o Palácio Monroe, onde funcionou o Senado Federal; os maiores bancos que operaram na cidade, lanchonetes, cafés e toda ordem de representações. Já em 1910 hospedava o Centro Financeiro da cidade.

No final da Avenida foi colocado o Obelisco que ainda hoje existe e que significava a revitalização da cidade. A Praça Floriano, atualmente conhecida como Cinelândia, só foi inaugurada em 1916 e foi a apoteose da República, apresentando a perspectiva de desenvolvimento que o café vislumbrava.

Coração da cidade, como sua principal artéria, a Avenida Central teve papel importante na vida do Rio de Janeiro e de seus habitantes, nos momentos de glória nacional ou da cidade e de grandes emoções, no prazer e no sofrimento. Em todos os momentos de vibração do povo desta cidade, a Avenida tomou parte, saudando, glorificando e sofrendo com a população.

Outro ponto importante da Reforma consistia de dois eixos radiais. O primeiro saindo da Avenida Central para a Lapa atingindo as Ruas Mem de Sá, Estácio de Sá e Salvador Correa de Sá até a Tijuca e São Cristóvão, do outro lado atingia desde o Arsenal de Marinha até a Praça Onze de Junho, passando pelas Ruas: Visconde de Inhaúma, São Joaquim, Marechal Floriano, ia até a Central do Brasil, o Mangue, o Campo de Santana e continuava até a Praça da Bandeira.

Em 1891 teve início o desmonte do Morro do Senado, Pereira Passos concluiu a obra fazendo surgir em seu local a Praça Cruz Vermelha e as ruas ao seu redor. A obra atingiu também o Largo da Carioca com a distribuição do transporte de bonde, a Rua Mariz e Barros, a Boulevard de São Cristóvão e a Zona Sul com a canalização do Rio Carioca no Catete e teve início a construção de uma Avenida Atlântica em Copacabana, que não é a que hoje existe, porque depois passou por outras grandes reformas que a ampliaram.

Foi aberta a Avenida Beira-Mar com 5.200 km de extensão, no trecho que ia do final da Avenida Central até o Mourisco em Botafogo, desta forma abrindo espaço para a ligação da Zona Sul com mais facilidade. Ao redor do Morro da Viúva foi construída a Avenida da Ligação que hoje se chama Avenida Osvaldo Cruz. Toda a faixa da Avenida foi conquistada ao mar por um aterro que era protegido por um enroscamento de pedras, sobre o qual o mesmo foi construído. A Avenida apesar de sua extensão levou os projetados 23 meses para ser construída.

Outra importantíssima obra da reforma foi a construção do novo Porto do Rio de Janeiro, e para melhor atendê-lo foi aberta a Avenida Rodrigues Alves, antiga Avenida do Cais com 3.090 metros indo da Praça Mauá até a Avenida Francisco Bicalho que também foi obra da reforma, resultado das obras de saneamento do Mangal de São Diogo, era um prolongamento do Canal do Mangue, desde a Ponte dos Marinheiros até o mar onde terminava o cais, possuindo 1.380 metros de extensão e 95 metros de largura sendo 33 metros mais larga que a Avenida Presidente Vargas que não é desta época e sim dos anos 40.

Em novembro de 1906, ao final do mandato de Rodrigues Alves, foi inaugurada a primeira parte do cais do Porto, com 50 metros de extensão, compreendendo parte da Gamboa e a embocadura do Canal do Mangue. Em fins de 1907 foram concluídos os 1.465 metros do cais, mas só o primeiro trecho possuía armazéns provisórios para o serviço de cabotagem sob a fiscalização da Alfândega, o restante continuava repleto de pontos de desembarque. O Porto do Rio de Janeiro foi inaugurado oficialmente em 20 de julho de 1910, pelo Presidente Afonso Pena.

Na Tijuca houve melhorias na Rua Barão de Mesquita e na Praça Saens Pena. A Reforma não deixou de contemplar as estradas turísticas, melhorando as curvas e macadanizando para oferecer melhor superfície de rolamento às estradas do Alto da Boa Vista, tendo sido melhoradas as estradas: da Cascatinha, da Bica, do Açude, da Vista Chinesa, da Gávea Pequena, de Furnas, da Barra da Tijuca e do Pica-Pau.

Foi também reconstruído o Mercado Municipal da Praça Quinze de Novembro, que foi demolido com a abertura da Avenida Perimetral e foi urbanizada a área adjacente do antigo Largo do Moura. Foi ampliado o Paço Municipal antiga sede da Prefeitura no Campo de Santana, que foi demolido com a abertura da Avenida Presidente Vargas e foi construído o Mercado das Flores na Travessa de São Francisco, atual Rua Ramalho Ortigão entre as Ruas da Carioca e Sete de Setembro, que foi transferido, em 1922, para a atual Praça Olavo Bilac, ao final da Rua Gonçalves Dias.

Foram embelezados e remodelados os jardins: da Praça Quinze, do Largo da Glória, do Largo do Machado, da Praça São Salvador, da Praça Onze de Junho, do Alto da Boa Vista, do Passeio Público e da Praça Tiradentes, desta última foi retirada uma balaustrada então aproveitada na Rua da Glória, que hoje se encontra arrematada pelo célebre relógio da Glória, que coroa uma coluna ornamental de gnaisse porfiróide.

Na administração de Pereira Passos foram construídas as escolas: Rodrigues Alves, Tiradentes, Prudente de Moraes, Deodoro e Alberto Barth. No Largo do Estácio na confluência da Rua Joaquim Palhares foi construído o prédio onde funcionou a Escola Normal, antes de mudar-se para a Rua Mariz e Barros, ele passou então a ser a sede da Limpeza Urbana.

O Projeto incluía a criação de uma legislação visando melhorar as condições de vida da cidade, que proibiu: o entrudo no carnaval, a venda de bilhetes de loteria nas ruas da cidade, a venda de miúdos de reses em tabuleiros, a ordenha de vacas leiteiras nas ruas à porta do freguês, a criação de porcos no perímetro urbano, a venda de carnes expostas nas portas dos açougues em condições anti-higiênicas e a mendicância nas ruas. Criou o serviço de apreensão de cães vadios nas ruas e tornou obrigatória a pintura das fachadas dos prédios visíveis dos logradouros.

Uma conseqüência negativa da Reforma Pereira Passos foi que ocorreu a expulsão da população do centro da cidade que na época era densamente povoada para a periferia, e por não haver um projeto de habitação para esta população, muitas vezes elas foram formar as favelas cariocas.

A reurbanização do Rio teve um documentarista de alto gabarito, o fotógrafo Marc Ferrez, que veio para o Brasil com seu pai Zéphyrin Ferraz, na Missão Francesa de 1815. Marc foi contratado para documentar a construção da grande avenida e através de suas fotos atualmente pode se relembrar como foi o boulevard mais lindo do Brasil.

A Reforma de Paulo de Frontin - 1919

Em 1919, o Vice-Presidente Delfim Moreira, que exerceu a Presidência da República com a morte de Rodrigues Alves convidou o engenheiro e senador André Gustavo Paulo de Frontin para ser Prefeito carioca. Era o segundo carioca a administrar a terra em que nasceu, o primeiro foi o Dr. Carlos Leite Ribeiro em 1902. Paulo de Frontin era um dos engenheiros mais famosos do país e foi professor ilustre da Escola Politécnica, resolveu dar continuidade à Reforma iniciada por Pereira Passos, na qual teve uma grande participação, dizendo que faria apenas um "modesto programa de obras".

Concentrou suas obras na Zona Sul da cidade, tendo dado prosseguimento à construção da Avenida Atlântica que foi duplicada e adquiriu sua extensão atual, construiu o Cais da Urca que permitiu que Carlos Sampaio depois projetasse a Avenida Portugal. Construiu a Avenida Delfim Moreira no Leblon em continuação da Avenida Vieira Souto de Ipanema.

Abriu a Avenida Niemeyer na encosta entre o mar e a montanha, ao longo do Maciço dos Dois Irmãos, que é até hoje uma via turística de onde se descortina um dos mais belos panoramas do Rio de Janeiro. Junto com o Elevado das Bandeiras é considerado um dos mais encantadores passeios da cidade, do tipo das estradas da Cote D’Azur.

Reurbanizou o Rio Comprido incluindo a abertura da Avenida Rio Comprido, que no dia da inauguração foi rebatizada pelo povo de Avenida Paulo de Frontin e construiu pontes nos cruzamentos das ruas: Haddock Lobo, Joaquim Palhares, Itapiru e no Largo do Rio Comprido. Suas obras atingiram o Alto da Boa Vista e Santa Teresa.

No Centro da cidade abriu a Rua Alcindo Guanabara nas terras do Convento da Ajuda, ligando a Rua Senador Dantas à Praça Floriano Peixoto. Abriu a Avenida Presidente Wilson, como prolongamento da Avenida Beira Mar indo até o Calabouço. Teve obras executadas na Ilha do Governador e até em subúrbios distantes como Santa Cruz, Campo Grande e Guaratiba.

Perfurou o Túnel João Ricardo com largura de 13,20 metros e comprimento de 335 metros ligando as Ruas Bento Ribeiro, antiga João Ricardo à Rua Rivadávia Correia, antiga Rua da Gamboa, facilitando a comunicação entre a Estação D. Pedro II, o centro da cidade e a área portuária.

Paulo de Frontin foi Prefeito por apenas seis meses, mas seu trabalho foi imenso, quando Epitácio Pessoa tomou posse substituiu Paulo de Frontin pelo Bacharel Milcíades Mário de Sá Freire na Prefeitura.

A Reforma de Carlos Sampaio - 1920-1922

Machado de Assis abre Esaú e Jacó, seu penúltimo romance, subindo o Morro do Castelo. O livro foi publicado em 1904, quando o Castelo perdeu a primeira encosta, para a abertura da Avenida Central, na altura do lugar onde se construiu a Biblioteca Nacional.

Natividade, a protagonista vai com sua irmã ao Castelo para se consultar com uma vidente sobre o futuro de seus filhos gêmeos. Para não revelar ao lacaio e ao cocheiro o seu verdadeiro destino, Natividade deixa o coupé um pouco distante da Ladeira do Carmo, na travessa entre a Igreja de São José e a Assembléia Legislativa, cujo nome é Travessa Natividade.

Apesar de Machado não tocar no assunto do arrasamento do morro repare-se o tom solene da predição: "Muita gente há no Rio de Janeiro que nunca lá foi, muita haverá morrido muita mais nascerá e morrerá sem lá pôr os pés."

Carlos César de Oliveira Sampaio foi convidado pelo Presidente Epitácio Pessoa para ser Prefeito do Distrito Federal e preparou a cidade para os festejos comemorativos do 1º Centenário da Independência. Carlos Sampaio era engenheiro e professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Cercou-se de uma boa equipe com o objetivo de executar a difícil tarefa da qual foi incumbido.

A obra mais marcante e também polêmica de sua Administração foi o desmonte do Morro do Castelo, para que a área fosse utilizada para a construção da Exposição Internacional do 1º Centenário da Independência do Brasil. Carlos Sampaio achava que nenhum outro Prefeito conseguiria realizar a tarefa do desmonte da colina para onde em 1567, Mem de Sá havia transferido a cidade do Rio de Janeiro, mas considerava necessária a demolição, porque achava que o Morro era um embaraço para ventilação da cidade e seu saneamento.

Tecnicamente, Carlos Sampaio ele não encontrava dificuldades porque já havia chefiado o desmonte do Morro do Senado. O material retirado foi usado para aterrar a região ao longo da Praia de Santa Luzia e a Enseada da Glória até a Ponte do Russel. A escavação a princípio foi mecânica, feita por escavadeiras e depois foi utilizado o desmonte hidráulico de melhor rendimento e finalmente foram utilizadas potentes bombas de maior eficiência.

O desmonte foi realizado e no ano do Centenário já se pode utilizar grande parte da área aterrada para a Exposição e o restante do aterro até o Russel continuou sendo realizado até 30 de setembro de 1922. No lugar onde existia o Morro do Castelo surgiu a Esplanada do Castelo, mas a cidade perdeu o seu berço.

Entre as outras obras que executou podem ser citadas:

Construção do Hotel Sete de Setembro no Morro da Viúva, hoje transformado na Escola de Enfermeiras Ana Néri.

Construção de um conjunto arquitetônico incorporado à Exposição do Centenário constituído de um teatro e um cassino, unidos por uma pérgula, no Passeio Público, mais tarde demolido na Administração de Henrique Dodsworth.

Construção das escolas: Celestino Silva na Rua do Lavradio e Pereira Passos na Praça Condessa de Frontin e também o novo prédio da Escola Epitácio Pessoa na Avenida Paulo de Frontin.

Construção da ponte de embarque na Praia da Ribeira na Ilha do Governador.

158 logradouros em toda a cidade receberam calçamento, reposição, reparos e conservação.

Abertura da Avenida Portugal na Urca, com 1915 metros pavimentados a macadame betuminoso e a Avenida Rui Barbosa permitindo uma segunda ligação entre os bairros de Flamengo e Botafogo, circundando o Morro da Viúva. Reconstruiu a Avenida Atlântica semidestruída por uma ressaca.

Abertura da Avenida Epitácio Pessoa em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas e construção de dois canais para saneamento da lagoa: o de comunicação com o mar no Jardim de Alah e o interceptador da Avenida Visconde de Albuquerque destinado a recolher águas pluviais da vertente da Serra do Corcovado, desviando da lagoa as águas doces que passaram a ser diretamente conduzidas ao mar. Estes canais foram projetados por Saturnino Rodrigues de Brito.

Abertura, saneamento e urbanização da Avenida Maracanã que facilitou o tráfego para os bairros da Tijuca e Vila Isabel. Nesta época foram construídos 3 km da Avenida que serviu também para diminuir o problema das inundações na região.

Carlos Sampaio veio complementar a Reforma de Pereira Passos, dando ao Rio de Janeiro a fisionomia atual da madura metrópole. Os grandes prédios da Esplanada do Castelo foram construídos mais tarde, a partir do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Em 1921 o Engenheiro Pedro Fernandes Viana da Silva, realizou o Projeto no 1420, que estabelecia a abertura do Túnel Catumbi – Laranjeiras e a abertura da Rua Pinheiro Machado. Este projeto, no entanto, só foi realizado nos anos 50 com a abertura do Túnel Santa Bárbara.

Desmanche do Morro do Castelo

"20 de janeiro de 1922 foi o dia designado para cerimônia da trasladação das relíquias históricas - a imagem de São Sebastião, as cinzas de Estácio de Sá e o marco simbólico da fundação da cidade do Rio de Janeiro.

Revestiu-se o acontecimento de tal importância que jamais será esquecido por quantos o assistiram. Pela manhã, às 6 horas, no altar-mor da igreja do morro, foi celebrada a última missa. Era a despedida dos capuchinhos aos fiéis que sempre os procuraram necessitados de consolo, cheios de aflições espirituais, e, seja-nos lícito dizer, nunca deixaram de neles encontrar alívio aos males, o conselho certo, a palavra oportuna para minorar as suas atribulações.

A missa desse dia memorável realizou-se no pátio da igreja, que para tanto foi ornamentada festivamente, e teve como oficiante o então arcebispo-coadjuntor dom Sebastião Leme, depois cardeal, falando após ao evangelho, o vigário da paróquia, monsenhor Benedito Marinho.

A afluência à cerimônia campal foi considerável; cerca de 10 000 pessoas desde a madrugada já se achavam nas imediações do templo, pela encosta do monte, numa demonstração viva de fé, e de respeito pelas gloriosas lembranças nacionais. Terminada a missa, as preciosas relíquias da cidade foram conduzidas até o sopé da colina, para então ser organizada a procissão. Durante a descida os navios da esquadra, as fortalezas da Guanabara e uma bateria colocada na Praça 15 de Novembro salvaram com 19 tiros.

Por cerca das 8 horas, o cortejo já estava formado. Via-se à frente uma grande bandeira dos navegantes portugueses, toda branca ao centro a cruz de Cristo. Logo após vinham os escoteiros católicos, colégios, irmandades, confrarias, ordens terceiras, clero secular e regular, e a seguir o andor com a imagem do padroeiro.

Atrás do andor iam o presidente da República Epitácio Pessoa, o prefeito municipal, Carlos Sampaio, representantes do Senado, da Câmara, do Supremo Tribunal Federal, Conselho Municipal, corpo diplomático, chefe de polícia e muitas outras autoridades. Um grupo de escoteiros conduzia uma bandeira nacional que tremulava ao vento, e após se via uma outra bandeira – esta era a de Estácio de Sá e o marco da cidade.

Somente às 12:30 horas chegou o cortejo cívico-religioso ao novo convento provisório dos frades capuchinhos, na Rua Conde de Bonfim. A imagem foi logo colocada por missionários da ordem, no lugar que havia sido adrede preparado, o mesmo acontecendo com as demais relíquias que passaram a ocupar uma sala contígua à capela. E ali no recolhimento temporário da Rua Conde de Bonfim, permaneceram os capuchinhos durante nove anos, isto é, até 1931. "(2)